Marjane Satrapi, a autora de Persépolis, morreu em 4 de junho de 2026 em Paris, aos 56 anos. Segundo a família, ela morreu de tristeza, pouco mais de um ano depois da morte do marido, o produtor e roteirista sueco Mattias Ripa. A notícia foi recebida com tristeza no mundo dos quadrinhos e da literatura, afinal, Satrapi foi uma voz importante na denúncia de regimes totalitários. Nascida em 1969 em Rasht, no Irã, ela cresceu em Teerã no seio de uma família progressista, de origem laica e de esquerda. Seu tio foi executado pelo regime. Sua infância foi interrompida pela Revolução Islâmica de 1979 e pelo endurecimento progressivo das restrições impostas às mulheres e à sociedade iraniana. Aos 14 anos, os pais a mandaram para a Áustria para continuar os estudos, diante da preocupação inclusive com sua sobrevivência. Ela voltou ao Irã depois do ensino médio, cursou a universidade em Teerã e só então se mudou definitivamente para a França, onde chegou em 1994 e obteve a cidadania francesa em 2006. Foi em Paris que ela encontrou o quadrinho como linguagem. Com a descoberta de Maus, e de Art Spiegelman, Satrapi entendeu que era possível contar a própria história com traços. Persépolis, publicado em quatro volumes entre 2000 e 2003, é uma obra autobiográfica em preto e branco que narra sua infância e adolescência no Irã da revolução e sua travessia pela Europa. Com traço ex Traduzido para cerca de 20 idiomas, o livro vendeu mais de 1,2 milhão de cópias no mundo. Em 2007, a adaptação cinematográfica que ela codirigiu conquistou o Prêmio do Júri em Cannes e foi indicada ao Oscar de Melhor Animação. Depois de Persépolis, vieram Bordados (2003), sobre a condição feminina a partir de conversas entre mulheres iranianas, e Frango com Ameixas (2004), uma obra sobre um músico que decide se deixar morrer após perder o que amava. Esta última ganhou o prêmio de Melhor Álbum no Festival de Angoulême, o maior do quadrinho mundial, em 2005, e também foi adaptada para o cinema, estreando em Veneza em 2011. Além dos quadrinhos, Satrapi dirigiu filmes como The Voices (2014) e Radioactive (2019), uma biografia da cientista Marie Curie. Em 2024, recebeu o Prêmio Princesa de Astúrias de Comunicação e Humanidades. Pouco antes, recusou a Ordem Nacional da Legião de Honra, maior condecoração da França, em protesto contra o que chamou de hipocrisia do governo francês nas relações com o Irã. Seu último projeto gráfico foi Mulher, Vida, Liberdade (2023), coordenado por ela com mais de 20 ilustradores de todo o mundo, lançado no aniversário da morte de Mahsa Amini. Por que ler Marjane Satrapi é indispensável Marjane Satrapi transformou a dor política em produção artística democrática, acessível a diferentes públicos. A honestidade de sua obra está no traço simples e na memória viva, tem o poder de derrubar generalizações, destruir estereótipos e devolver a humanidade a quem foi reduzido a manchete. Ler Satrapi é entender que a história do Irã é a história de famílias, de mulheres, de pessoas que amam, que perdem, que resistem e que seguem. É entender que a arte de contar a própria vida pode ser, ao mesmo tempo, um ato íntimo e um gesto político imenso.