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A mãe na literatura: de Úrsula Buendía a Vedina, a maternidade que os livros não romantizam
Carol Avansini
24/04/2026 21:57:24

Todo Dia das Mães, as vitrines enchem de flores e chocolates. Os livros, quando tratam do assunto, costumam ir por outro caminho.Afinal, a literatura tem pouco interesse na mãe perfeita. As personagens maternas mais marcantes da ficção são mulheres que amam de formas tortas, que erram, que somem, que sufocam. Por tudo isso, parecem muito mais reais do que qualquer cartão postal. 

Se você está procurando um presente para o Dia das Mães, essa seleção pode ajudar: cada título aqui carrega uma forma diferente de olhar para a maternidade. 

Úrsula Buendía — Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez

Úrsula é descrita como uma mulher ativa, exuberante e generosa — adotou os 17 filhos de Aureliano Buendía e serviu de apoio ao povoado de Macondo por mais de cem anos. É a matriarca que segura tudo enquanto os homens ao redor se perdem em guerras, em obsessões e delírios. Ela não é a protagonista do romance, mas é o centro de gravidade de toda a narrativa. Sem Úrsula, Macondo não existe.

Mariam e Laila — Mil Sóis Esplêndidos, Khaled Hosseini

Apesar de apenas Laila ter gerado filhos biologicamente, as duas personagens unem forças para criar as crianças com todo o amor possível. É essa união que lhes dá forças para enfrentarem juntas a opressão e as mazelas da guerra em Cabul. Hosseini constrói aqui uma maternidade que não depende de sangue, mas de escolha, de presença, de resistência.

Dalva — Tudo é Rio, Carla Madeira

O drama de Dalva começa a partir de uma violência contra ela e o filho recém-nascido, o que a lança em um luto permanente. Tomada por sentimentos contraditórioscomo dor, ódio, culpa, amor e desejo de vingança, ela representa a mãe que enlouquece em silêncio. Carla Madeira não a absolve nem a condena. Apenas mostra o que acontece quando o instinto materno encontra a crueldade do mundo e o que uma mulher é capaz de fazer a partir daí.

Vedina — Véspera, Carla Madeira

Contada em dois tempos, a história revela como a violência doméstica, os traumas de infância e a solidão empurram Vedina para o limite. Ela não é uma vilã, mas o retrato de uma mulher vencida pelas circunstâncias e sua trajetória provoca ao mesmo tempo desconforto e empatia. É uma das personagens maternas mais complexas da ficção brasileira recente, e aparece no mesmo momento em que o romance está sendo adaptado para série na Max.

A ausência — A Hora da Estrela, Clarice Lispector

A mãe de Macabéa aparece apenas de forma indireta no romance — mas a ausência dela é marcante. Clarice entendeu antes de muita gente que o vazio também é personagem. O que não foi dado, o que nunca houve, molda tanto quanto qualquer presença.

 Imagem por Freepik
Créditos: Imagem por Freepik
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